Tratar a paciente com sobrepeso e obesidade é um desafio para médicos, nutricionistas, psicólogos e até mesmo para a própria paciente. Estamos lidando com uma patologia complexa, de etiologia múltipla e que necessita muitas vezes de uma equipe multidisciplinar para sua abordagem e controle, associado a uma grande força de vontade por parte da paciente de mudar seus hábitos e adquirir uma disciplina nessa área (desenvolvendo habilidades que muitas vezes lhes é difícil). Obesidade é uma doença que precisa efetivamente da participação da paciente para o seu tratamento.

Lutamos contra fatores ambientais (tentadores) que ajudam no ganho de peso (alimentação calórica, muito variada e palatável, pobre em fibras, com alto teor de carboidrato e um sedentarismo crescente), fatores genéticos ( a tendência familiar à obesidade), fatores hormonais ( menopausa,  andropausa, tratamento para fertilização, envelhecimento) e o stress que gera para muitas pessoas momentos de compulsão e descontrole alimentar. Além disso, ainda nossas emoções estão muito vinculadas ao ato de comer, tanto sentimentos de prazer e alegria como de revolta, angustia e solidão. A alimentação faz parte da vida de algumas pessoas como fator central das interrelações, muitos costumes adquiridos nos primórdios da nossa vida estão vinculados ao redor da “mesa”. É necessário detectar isso e tentar separar : emoções x alimentação. Não é um processo fácil, principalmente em algumas famílias, mas hoje temos muitos recursos psicoterápicos e nutricionais para serem usados como ajuda.

Todos nós sabemos da importância da reeducação alimentar (tentar introduzir no dia a dia, uma alimentação saudável e balanceada; adquirir hábitos equilibrados à mesa e fora dela) e da atividade física diária, seja ela programada ou informal (por ex. andar mais a pé). Mas às vezes o começar é difícil, porque as pessoas fazem pequenas mudanças na sua rotina e esperam resultados muito grandes e irreais, em um curto espaço de tempo, e como isso não acontece, desanimam. Sabemos que a maioria das pessoas hoje tem uma rotina estressante e corrida, comem com freqüência na rua, buscam refeições de baixo custo, tem pouco tempo ou impossibilidade de um preparo alimentar em casa. Todos esses aspectos são abordados durante a reeducação alimentar e oferecido várias opções de ajuda, mas o paciente tem que estar motivado a aceitá-los e a colaborar, senão em tudo ele arruma uma “desculpa” e não adere as mudanças.

Perder peso é um investimento, de médio a longo prazo, com períodos de maior e de menor estimulo, como se fosse a compra de uma casa própria ou de juntar dinheiro para qualquer outro sonho material! Parece distante, mas com o tempo vai ficando mais próximo e mais real. Além das mudanças pessoais, lutamos contra uma genética, um metabolismo próprio e que muitas vezes não quer ajudar nessa sonhada perda de peso. Imaginar um tratamento que obtenha um resultado satisfatório a curto prazo e com pouco esforço (principalmente em relação a mudança de hábitos) é estar fadado ao fracasso, e decepção. Enquanto o paciente não se convencer de que precisa reorganizar sua vida e sua cabeça (a forma como lida com a alimentação), não irá obter o esperado. E não precisamos repetir, que esse processo de mudança demanda tempo e esforço próprio. Perder peso não tem milagre, nem nenhum tratamento excepcional até o momento. Mesmo as medicações que estão hoje disponíveis no mercado e as que estão por vir, tem um “limite” de ação e ajuda. Por essas questões, o paciente precisa compreender que estamos diante de um processo lento mas compensatório a longo prazo.

 

 

O indivíduo tem que incorporar na sua rotina idéias de controle, que muitas vezes é visto e confundido como: restrição ou proibição!! Esse controle é o mesmo que temos com nossas finanças pessoais (dinheiro), que muitas vezes nos impede de comprar certos produtos pelo valor alto. Nós não aceitamos essa restrição financeira para não haver prejuízo no nosso orçamento?? Por que não podemos levar esse controle para a alimentação??  Basta compreendermos que não dá para comer sempre tudo o que se quer e nem na quantidade e frequência  que se imagina. Principalmente à medida que vamos envelhecendo, onde ocorre naturalmente uma diminuição fisiológica do metabolismo e das atividades físicas. Portanto, seria o mesmo que dizer que nossa “mesada” para gastar em calorias diminui com a idade.

Baseado nessa informação, temos o primeiro pilar da reeducação alimentar : COMER COM CONSCIENCIA . A partir do momento que prestamos atenção nas nossas escolhas e nas quantidades que estamos comendo, isso já é uma reeducação alimentar e mais ainda, começamos a ter mais atenção aos nossos sinais de saciedade. Não importa se você comeu muito ou pouco, mas coma com consciência e não com automatismo, saiba o quanto você comeu! Quando sentir que houve um exagero, só essa percepção já vai ajudá-lo a ajustar e compensar numa próxima refeição. Saia de uma reunião ou uma festinha com consciência de quantos salgadinhos e /ou docinhos comeu, quantas taças de vinho ou copos de cerveja bebeu. Quando você entra numa loja ou restaurante você tem a consciência de quanto você tem e pode gastar, o mesmo você deve fazer com o seu ato de comer. Comer também tem limite! Quando você não tem esse controle, chamamos isso de compulsão (que existe obviamente em vários graus) e muitas vezes há a necessidade de uma ajuda medicamentosa para o individuo conseguir realizar esse “comer com consciência”. Mesmo quando se faz a opção por usar um moderador de apetite, tem que se desenvolver essa habilidade para poder tentar viver sem esse remédio depois de certo tempo. A medicação deve ser vista, como uma ajuda  na reeducação alimentar.

A partir desse primeiro pilar, desenvolvemos instintivamente o segundo: ATENÇÃO A SACIEDADE. Será que precisamos repetir o prato? É uma necessidade fisiológica? Preciso me submeter a este impulso ou gula? Da mesma forma que sentimos quando estamos com sono, ou com necessidade de ir ao banheiro, temos que desenvolver a sensibilidade para perceber fome x saciedade e não agir sem controle. Claro que esse quesito demanda uma maior força de vontade e autocontrole, mas não temos esse mesmo controle quando paramos uma compra (por mais tentadora e apaixonante que seja), pelo simples motivo que não vamos ter condições para pagá-la? Passar um pouco de vontade, significa controlar impulsos. Ninguém morre porque deixou de comprar tal bolsa ou sapato, ou de deixar para o próximo mês a tão sonhada roupa. Da mesma forma temos que saber parar e passar vontade de repetir ou mesmo de não comer com freqüência produtos calóricos. Isso não significa que a pessoa nunca vai sair de uma rotina ou abusar um pouco em algumas circunstancia da vida, mas esses momentos têm que ser com pouca freqüência e não estar associados a sentimentos de culpa.

Por fim, vamos falar do VOLUME (bowl). Quando as pessoas fazem um regime, elas geralmente diminuem o que comem nas refeições, mas ficam com a idéia errada de se for a uma festa ou comemoração familiar pode sair do controle e comer o quanto quiser. Ou ainda, se tiver uma viagem, não precisa fazer esse controle porque está viajando ou de férias. Sem duvida nenhuma, nesses momentos fugimos da qualidade (porque sempre nessas ocasiões nos são oferecidos alimentos mais calóricos ou diferentes da rotina diária), mas não devemos mudar o tamanho do prato. Seja uma comida light ou outra muito calórica, o bowl deve ser o mesmo. Aqueles pensamentos: “já que hoje vou comer uma feijoada, vou também comer a vontade” ou “já que estava em um hotel com refeições variadas, fartas, diferentes do meu dia a dia, aproveitei”, devem ser banidos. Nosso estômago é um órgão elástico e com “memória”, se comemos o mesmo volume sempre, ele compreende que é essa a quantidade que precisamos e nos ajuda no controle da saciedade

Todos nós temos vontades, todas as pessoas às vezes fazem um “pecadinho” alimentar, todos somos iguais. O que diferencia é a frequência e quantidade desses abusos.

Não discutimos aqui calorias, ou o que achamos certo ou errado comer, abordamos aspectos de comportamento que devem ser gradativamente incluídos no dia a dia, para evitar o ganho de peso e ajudar no tratamento para perdê-lo. Trabalhar a nossa cabeça que reeducação alimentar ou perda de peso, não significa uma prisão, ou fim dos prazeres, ou monotonia alimentar e sim um controle pessoal sobre o SEU ATO DE COMER. Adquirir essa visão de forma gradativa e saudável para não ter medo ou preconceito de comer esse ou aquele alimento. Nem taxar essa ou aquela dieta como ideal. Ideal é você viver bem.

  • Doutora em Endocrinologia e Metabologia pela Faculdade de Medicina da USP. Coordenadora do Núcleo de Obesidade e Cirurgia Bariátrica do Hospital Sírio Libanês. Coordenadora do Departamento da ABESO (Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica) de Transtornos Alimentares. Participa da Coluna Veja Online – Letra de Médico. Autora do Livro: Como cuidar da Obesidade – HSL.

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