Saramago escreveu que ““Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.

Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo”.

Para nós mulheres maduras, mães, chega o momento que eles saem de casa. Depois de tantos anos de dedicação, cuidado constante, de educar, de vê-los crescer e se desenvolver, chega o dia que eles alçam seus voos.

O processo começa quando vão para à escola. O drama da escolha da melhor educação, da adaptação, de vê-los construir suas amizades, seus questionamentos, seus aprendizados.

Depois escolhem suas profissões e seguem, para a universidade, cursos técnicos ou vão trabalhar no que escolheram. Nesta fase, já podemos vivenciar a sua ida. Mas eles voltam, chegam a qualquer hora, regressam ao lar, mesmo que faltem um dia ou outro.

A certeza da volta nos traz uma sensação de controle, de ninho, de casa cheia.

Mas chega o momento que eles saem de casa e nosso ninho fica vazio. Vazio da presença física, dos amigos, do barulho, dos encontros durante o café da manhã, almoço ou jantar. Vazio das discussões, da conversa, da porta do quarto fechada, da música, dos risos, choros, indagações, revoltas. Dos “papos cabeça”, das confissões, do filme em família, da hora da fome, da insônia, do carinho, do beijo, do abraço, do cheiro, do movimento.

Vazio da presença de nosso maior amor.

Para nós, mães, filhos são o nosso maior amor. Um amor incondicional. Não é um amor cego, mas compassivo. O olhar amoroso de uma mãe contempla todos os defeitos e qualidades de nossos filhos e os amamos com todas as suas idiossincrasias e os queremos perto de nós sempre.

Mas esse amor também quer que eles cresçam e se desenvolvam, se realizem enquanto seres humanos. Queremos que se tornem independentes, que encontrem um amor, uma profissão, que sejam felizes.

Quando nos vemos livre de nossa tarefa enquanto mães, quando os vemos livres, independentes, em um novo lar, construindo uma nova vida, presenciamos um sentimento muito ambíguo, de alegria e “dever cumprido”, e falta.

Isso tem nome: Síndrome do Ninho Vazio, um período muitas vezes doloroso, de ruptura, de ausência, de insegurança.

Faço uma analogia. Quando nossos filhos saem de nossa barriga, o sentimento é um misto de alegria, de alívio, junto com uma falta. O parto é um momento inesquecível para todas as mães. Um momento de hormônios revoltos, medo, alegria, realização, novas perspectivas, novos desafios.

O Ninho vazio também. Não sabemos lidar até que ele chegue.

Nos tornamos mães quando os filhos nascem. Nada sabemos até então, mesmo que sejamos instruídas para isso.

No Ninho Vazio a mesma coisa acontece. Não sabemos como reagiremos, o quanto esse voo afetará nossa vida.

Mais uma vez a vida nos coloca à prova. Como reagir? Sofrer por antecedência é optar por sofrer por uma coisa que não sabemos o que é.

Encarar os fatos, com consciência, é a melhor opção.

O olhar deve focar na vida que está em constante movimento. Ciclos, fases, podemos chamar como quiser. O fato é que filhos crescidos e independentes significam que a nossa vida é repleta de surpresas e temos que encara-las como realidade, sem negação. Nada é permanente.

Olhar para aqueles seres pequeninos que se desenvolveram e estão no pico do abismo, aprendendo a voar, pode, e deve, ser um momento de alegria.

Temos que olhar para a nossa vida e encontrar uma nova maneira de viver, não com a ausência, mas com a presença de nossos amores adultos, da maneira que for, do jeito que é.

Reorganizar a nossa rotina é um bom começo. Não temos controle de nada. O controle é abstrato e não corresponde à realidade.

O que é possível fazer é simplesmente conviver com essa nova reorganização.

A vida, novamente, nos propõe a olhar para nós mesmas. Para o nosso amor com mais dedicação, para encontrar um novo amor, para se dedicar ao nosso propósito, rever o que nos dá prazer.

Fazer programas que há muito tempo não fazíamos, encontrar uma atividade que deixamos de lado, se abrir para conhecer a vida de nossos filhos, redescobrir o nosso espaço.

A independência dos filhos é um êxito para nós também.

Muitas mães sofrem demais nessa fase e se entregar a essa tristeza pode criar um luto duradouro.

Que privilégio é poder ver o desenvolvimento de nossos filhos! Que maravilha ser expectador da vida. É sob esse ângulo que temos que olhar.
E se dedicamos muito tempo a eles, e agora não sabemos o que fazer, que ótima oportunidade para descobrir!

A casa ficou vazia? Vamos preencher com nossos sonhos!

Somos indivíduos. Esse relacionamento de respeito mútuo também é uma continuidade da nossa presença enquanto mães.

Nada acabou, só se transformou. Sejamos maleáveis às mudanças!
Essa abertura para a vida pode ser uma experiência ainda mais rica.

Pode demorar um pouco? Sim, mas que tal ressignificar esse momento?

Filmes sugeridos:

The Family (La Familglia, 1987)

Direção de Ettore Scola

Com o pano de fundo da história italiana do século XX, Carlo, um professor aposentado, traça as vicissitudes de sua família.

 

Casamento Grego (My Big Fat Greek Wedding, 2002)
Direção de Joel Zwick

Uma jovem grega se apaixona por um não-grego e luta para fazer com que sua família o aceite enquanto ela aceita sua herança e identidade cultural.

  • Idealizadora, curadora do O Caminho do Encontro, um espaço para mulheres que estão transitando os 50 anos, que procuram um lugar feminino onde possam valorizar a maturidade para ressignificar essa fase da vida.

Relacionados